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6 de Abril de 2020

Notas sobre Identidade Religiosa e Catolicismo Popular na Comunidade Remanescente de Quilombo do Carmo

Rebeca Campos Ferreira, Antropólogo
há 3 anos
Originalmente publicado na Revista Brasileira de História das Religiões.
FERREIRA, Rebeca Campos. Promessas e Santos, Procissões e Festas: Notas sobre Identidade Religiosa e Catolicismo Popular em uma Comunidade Remanescente de Quilombo. in Revista da Associação Brasileira de História das Religiões, Experiências e interpretações do sagrado: interfaces entre saberes acadêmicos e religiosos. Vol. 12 (2011), http://www.abhr.org.br/plura/ojs/index.php/anais/issue/view/6/showToc

RESUMO:

A Comunidade Remanescente de Quilombo do Carmo (SP) será analisada sob a perspectiva da construção de identidades a partir de uma reflexão voltada ao catolicismo popular. Para compreendê-la em seus próprios termos é preciso ter o aspecto religioso como primordial em sua organização social. A religião perpassa os demais âmbitos, põe em ação elementos que simbolizam a identidade, identificando a cada um e a todos como parte de uma totalidade própria. Serão feitas considerações acerca do calendário religioso que mobiliza a comunidade, recorrendo às evidências etnográficas, onde se vê um circuito de festas e procissões, santos e obrigações, que influem nas relações da comunidade. A religião está presente na vida social cotidiana e a Festa mostra as relações de reciprocidade e de identidade da comunidade, estruturadas pelo parentesco e pela religião, reforçando-se mutuamente em um arcabouço de referências simbólicas.

Palavras-chave: Comunidades Remanescentes de Quilombo, Festas Populares, Catolicismo Popular, Catolicismo Negro, Identidades.

Abstract: The Quilombo do Carmo, Brazil, will be analyzed from the perspective of identity construction, from a reflection focused on popular Catholicism. To understand it on its own terms is necessary to have the religious aspect as paramount in your organization social. Religion permeates other spheres, brings together action elements that symbolize the identity, identifying to one and all as part of a whole self. Considerations are made about the religious calendar that mobilizes the community, drawing on evidence ethnography, where you see a party circuit and processions, saints and obligations that influence the relationship community. Religion is present in social life daily, and the festivities popular shows the relationships of reciprocity and community identity, structured by kinship and religion, and mutually reinforcing in a basement symbolic references.

Keywords: Quilombo communities, Festivities, Popular Catholicism, Catholicism Black, Identities.

Apresentação

O Bairro do Carmo localiza-se na Estância Turística de São Roque, a 70 quilômetros de São Paulo. Está a 30 quilômetros do centro do município, cercado por importantes agentes econômicos que transformaram a região em relevante área de especulação imobiliária. A comunidade fora reconhecida como Comunidade Remanescente de Quilombo do Carmo e Patrimônio Cultural Brasileiro em agosto de 2000 pela Fundação Cultural Palmares1. Todavia, a peculiaridade da presente comunidade vai além da própria identidade quilombola, remetendo ao forte catolicismo e à presença da própria Nossa Senhora do Carmo na identidade do grupo.

O objetivo do presente trabalho é a reflexão acerca do calendário religioso da comunidade, para tanto foi realizada etnografia na Festa de Nossa Senhora do Carmo, evento mais importante do Bairro, no qual vê-se traços do Catolicismo Popular e o modo como este perpassa todos os âmbitos da comunidade, orientando as relações sociais cotidianas e proporcionando bases sobre as quais constrói-se a identidade. A metodologia foi complementada com conversas com moradores e observação participante nas atividades religiosas.

Fé, Identidade e Direitos

Os santos da comunidade possuem uma família responsável por enfeitar e carregar o respectivo andor. Desse modo, ‘cada família tem o seu santo’, ou ‘cada santo tem uma família’, como é referido pelos moradores. Nas reuniões que antecedem a festa são verificadas as graças alcançadas, sendo que aquele que obteve a graça será responsável por enfeitar o andor do santo que lhe concedeu a graça. A família tradicionalmente responsável pelo Santo cederá o lugar àquele que pagará a promessa. O fato evidencia uma rede de obrigações que se forma entre as famílias e os santos, com o pagamento pelas respectivas graças concedidas e por meio do enfeite aos andores.

E quanto aos santos de famílias, Dona Aparecida, responsável por São Sebastião, explica:

“Cada família aqui do bairro toma conta de um. É das famílias. Eu tenho o andor do meu santo, que eu tenho que enfeitar todo ano, mas se dona Tereza, por exemplo, tem uma promessa pra ele, ela me pede pra enfeitar. Eu sou responsável, mas eu passo pra ela, no outro ano eu enfeito se outra pessoa não tiver promessa. E se eu tiver promessa pra algum outro santo eu vou enfeitar ele.”

Valem breves considerações acerca das relações entre famílias e santos. Conforme toma Bastide (1971), as populações negras, afastadas das cidades e dispersas foram “religiosamente abandonadas a si próprias”, e desse modo cada família se entregara à guarda e à proteção de um santo. As ligações passam a ser tratadas diretamente com estes, sem o intermédio da autoridade religiosa constituída representada pelo padre: por meio desse entendimento direto com a divindade, criam seus próprios meios e instituições, que os permitem manter, viver e reavivar a fé frente ao isolamento. No caso da Comunidade do Carmo tem-se ainda que o parentesco entre as famílias assenta-se no plano sagrado, na medida em que reproduz o próprio parentesco entre os santos.

Os santos das famílias representam um plano, por extensão, das relações da comunidade, pautadas no parentesco e na religião:

[...] O culto do santo de casa realiza interesses religiosos determinados pela lógica da produção simbólica da família no plano do sagrado. (...) desse modo, o culto de cada santo das famílias refaz, no plano do sagrado, a instituição familiar, como foco das relações entre individuo e sociedade e entre sociedade e cultura. A ‘posse’ de um santo determina a realização de relações sociais, econômicas, etc, entre uma família e outras famílias da comunidade. Consequentemente ressalta o caráter ao mesmo tempo estruturante e estruturado das relações entre a família e a comunidade (BANDEIRA, 1988: 210).

E visto que, a cada graça obtida por meio das promessas, há uma ‘troca’ de santos, tem-se um movimento contínuo que interliga santos e famílias, em um processo social espelhado, que interliga, numa rede de obrigações mútuas, umas famílias a outras. A religião, no Carmo, perpassa as diferentes esferas da vida social, constrói, consolida e dá as bases da identidade desse grupo, na medida que as famílias – assim como as suas relações – que participam dessa rede são tão sagradas quanto os santos a que estão relacionadas.

As promessas orientam as relações, tanto entre as famílias quanto destas com os santos, com os quais ficam em ‘débito’, sendo este quitado mediante estabelecimento de acordos com outra família, no tocante à preparação do santo para a procissão e o carregar de seu andor. As relações ocorrem entre os Santos, mediadas pelas relações entre as famílias. O que se vê é uma troca recíproca entre indivíduos e Santos, por meio das famílias, e entre os membros das famílias – cede-se o lugar, troca-se de santo, e no próximo ano a situação novamente muda, ou a família retorna ao seu santo, ou assume outro, dependendo das promessas e graças alcançadas no decorrer do ano.

Essas relações são caracterizadas pela fluidez, uma vez que não há fixação ou posse intransferível do Santo. Embora cada santo remeta a determinada família, a prioridade sobre ele é dada pela obrigação do pagamento da promessa, que amplia o raio da reciprocidade e quebra o caráter puramente individual, familiar ou particular. É, portanto, incluída na relação família-santo, a outra família ou pessoa que fez a promessa que o Santo atendeu, e a cada ano tem-se uma renovação cíclica que mantém os laços comunitários e dá as bases da identidade da comunidade do Carmo, como filhos da Santa, partes de “uma reza só”.

O presente fato ressalta ainda a relevância da família e o parentesco como a unidade central deste grupo, como base da sua vida social. O movimento dos santos, portanto, coloca em movimento relações familiares e de pessoas tomadas individualmente, estabelecendo integração intensa entre as unidades constituintes da formação social comunitária.

No âmbito da discussão acerca de 'Terras de Preto' e 'Terras de Santo', a condição de coletividade é enfatizada, baseada no compartilhamento do território e da identidade, que converge então a territórios étnicos determinados. As 'Terras de Preto', de origem variada, são tidas como “domínios doados, entregues ou adquiridos, com ou sem formalização jurídica, por famílias de escravos” (ALMEIDA, 1989: 174). No caso das 'Terras de Santo', têm-se responsabilidades simbólicas com divindades, baseadas em relações contratuais entre os membros e os santos, sendo estes os proprietários do local, enquanto os primeiros os servem e cuidam de sua área. Essas relações estão além do registro de terras, visto que englobam dimensão simbólica (ALMEIDA, 2004). E a comunidade do Carmo insere-se tanto nas considerações acerca das Terras de Preto quanto na discussão sobre Terras de Santo.

As orientações, sociais ou simbólicas, estão inscritas tanto nos agentes quanto nos territórios, e por meio da memória, da ação e da prática são evidenciadas. Práticas estas que são permeadas pelo universo simbólico dos agentes, categorias e regras mediantes as quais pensam e representam sua existência, práticas que objetivam o modo de vida (PIETRAFESA DE GODOI, 1999).

Na medida em que os membros desse grupo compartilham imagens depositadas, formam-se identidades; fatos que podem ser percebidos pela etnografia da Festa de Nossa Senhora do Carmo, no sentido de representar um instrumento de existência e de reprodução dos agentes sociais em questão. O território religioso é dotado de estruturas específicas e favorece o exercício da fé e da identidade religiosa, que ocorre no tempo e no espaço. Sistemas religiosos formam, portanto, territorialidades que extrapolam limites institucionalmente demarcados. Bonnemaison (2002) acrescenta a noção de Geossímbolo, tendo em vista que é pelo território que a relação simbólica travada entre cultura e espaço se encarna, desse modo tem-se que a territorialidade está impregnada do caráter cultural e, através destes geossímbolos, a religião imprime e exprime suas marcas, estas que, por sua vez, vão identificar e delimitar dado território.

As relações de parentesco, relevantes no debate acerca da construção de identidade e território, ganham aqui a peculiaridade da descendência da Santa. Parentesco e território constituem identidade, tendo em vista que indivíduos, pelo sentimento de pertença, se relacionam dentro de um território maior. Território é, portanto, elemento constituidor de identidade, de forma estrutural – o parentesco – e de forma fluida, considerando a flexibilidade dos grupos e que identidades não são fixas (BARTH, 1976).

Foge à estrutura de modelos agrários, e extrapola o simples reconhecimento oficial de comunidade de remanescentes de quilombos, escapa e resiste à homogeneização imposta por procedimentos administrativos do Estado. Conforme fora ressaltado, os moradores do Carmo e aqueles que se dispersaram por seu entorno são remanescentes da própria Santa, que se faz presente no espaço, no discurso, nas relações cotidianas, nos nomes de família, e nas relações sociais estabelecidas entre os moradores do Bairro do Carmo e destes com o mundo a sua volta.

A Festa de Nossa Senhora do Carmo é, portanto, a identidade exposta, a fé que adquire forma em seu espaço e evidencia relações comunitárias. A religião está presente na vida social cotidiana, cuja representação pela Festa, mostra a reciprocidade e a identidade da comunidade do Carmo. O calendário religioso reitera a situação social perpassada pela religião, consolidando o processo fluido de construção identitária. As relações da comunidade, estruturadas pelo parentesco e pela religião, se manifestam no evento aqui apresentado, e mutuamente se reforçam em um arcabouço de referências simbólicas. E, visto que tem abrangência coletiva, integra a totalidade do grupo, independente do sexo, posição ou idade; dá existência e tem, portanto, papel relevante na formação da identidade do grupo, enquanto 'filhos de Nossa Senhora do Carmo'.

Trabalho apresentado no XII Simpósio Nacional da Associação Brasileira de História das Religiões, 31/05-03/06/2011, UFJF, Juiz de Fora, MG. Publicado no Vol. 12 (2011) da Revista da Associação Brasileira de História das Religiões, Experiências e interpretações do sagrado: interfaces entre saberes acadêmicos e religiosos.

Referências bibliográficas:

ALMEIDA, Alfredo Wagner B. De. Terras de Preto, Terras de Santo, Terras de índio – uso comum e conflito. In Habette & Castro (org.) Na trilha dos grandes projetos. Belém: NAEA/UFPA.

ALMEIDA, Alfredo Wagner B. Terras Tradicionalmente ocupadas: processos de territorialização e movimentos sociais. Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais, v.06, n.01, 2004.

ARRUTI, José Maurício. O Quilombo Conceitual: Para uma Sociologia do Artigo 68. Projeto Egbé, Territórios Negros, KOINONIA, 2003.

BANDEIRA, Maria de Lourdes. Território Negro em Espaço Branco. São Paulo: Brasiliense, 1988.

BARTH, Fredrik. Los Grupos Etnicos y sus Fronteras. México. Fondo de Cultura y Economia, 1976.

BASTIDE, Roger. As Religiões Africanas no Brasil. São Paulo: EDUSP,1971.

BONNEMAISON, J. Viagem em torno do Território. In CORREA, Roberto Lobato & ROSENDAHL, Zeny. Geografia Cultural: um século. Rio de Janeiro: Editora UERJ, 2002.

PIETRAFESA DE GODOI, Emília. O Trabalho da Memória: cotidiano e história no sertão do Piauí. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 1999.

1 Publicado no Diário Oficial no. 166, em 28/07/2001, nos termos do Artigo 68 do ADCT-CF/88

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